O Inverno parece ter-se lembrado de existir e, com isso, convidar-nos às noites de lareira e aconchego, com inevitáveis livros que nos conduzam, tanto quanto possível, sãos e salvos ao novo ano e a uma nova etapa escolar.
Numa releitura do livro Milagre (Wonder, no original) da escritora R. J. Palacio, reparámos que, entre as capas de várias edições, existe uma discrepância interessante. Se ainda não leu, o livro conta a história de August, um menino de dez anos com uma deformação facial que não lhe facilita nada a vida. A voz de vários narradores, com diferentes pontos de vista sobre August, torna a leitura muito fácil e interessante. O livro começa com a personagem principal a a apresentar-se. A certa altura diz "Não vos vou descrever a minha cara, seja o que for que possam pensar, é pior." Essa foi a frase escolhida para a capa da edição portuguesa. A frase de capa de uma das edições em inglês é "You can't blend in when you were born to stand out" e faz-nos pensar na importância e riqueza de sermos todos diferentes. O excerto que deixamos abaixo, retirado também das páginas iniciais do livro, mostra como a autora consegue, em poucas frases, apresentar vários dos problemas com que se debatem muitas crianças com deficiência e as suas famílias. Se ainda não leu, leia. É divertido e comovente e convida à reflexão.
Vou entrar para o quinto ano na próxima semana e, como nunca antes frequentei uma escola a sério, estou totalmente petrificado. As pessoas pensam que eu não fui para a escola por causa da minha aparência, mas não é isso. Foi por causa de todas as cirurgias que fiz. Vinte e sete desde que nasci. As maiores foram feitas ainda eu não tinha sequer quatro anos, por isso não me lembro delas. Mas, desde então, tenho feito duas ou três cirurgias todos os anos (umas grandes, outras pequenas). Por ser pequeno para a minha idade e reunir em mim mais alguns mistérios da medicina que os médicos nunca perceberam bem, costumava adoecer muito. Foi por isso que os meus pais decidiram que era melhor eu não ir para a escola. Agora, porém, estou muito mais forte. Fiz a última cirurgia há oito meses e provavelmente não terei de fazer mais nenhuma durante mais alguns anos.
A mãe dá-me aulas em casa. Era ilustradora de livros infantis (...). Há muito tempo que não a vejo desenhar nada. Creio que anda demasiado ocupada a cuidar de mim e de Via.
Votos de um Bom Ano Novo!



